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O estrangeiro

Blogadinha, em 12.05.16

 

«Em seguida, tudo se passou muito depressa. A audiência foi
suspensa. À saída do tribunal e ao subir para o carro,
reconheci durante breves instantes o cheiro e o calor das
tardes de verão. Na obscuridade da minha prisão rolante,
reencontrei um a um, no fundo do meu cansaço, todos os ruídos
familiares de uma cidade que eu amava e de uma certa hora em
que tantas vezes me sentira contente. O pregão dos vendedores
de jornais no ar já mais fresco, os últimos pássaros no largo,
o grito dos vendedores de sandwiches, o queixume dos
eléctricos nas curvas íngremes da cidade e este rumor do céu
antes da noite tombar sobre o porto, tudo isto reconstituía
aos meus olhos um cego itinerário que já conhecia muito antes
de entrar para a prisão. Sim, era a hora em que, há muito,
muito tempo, eu me sentia contente. O que então me aguardava,
era sempre um sono ligeiro e sem sonhos. E no entanto alguma
coisa se modificara, pois com a expectativa do dia seguinte,
foi a minha cela, que reencontrei enfim. Como se os caminhos
familiares traçados nas noites de verão pudessem conduzir,
tanto às prisões, como aos sonos inocentes

 

 

Felicidade maior é não indagar sobre o assunto.

Viver e ponto – formosura! O livro, nem tanto.

 

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